Acordo Mercosul–UE impulsiona cooperação em minerais e energia entre Brasil e França
Vale, governo francês e Engie relacionam avanço do acordo Mercosul–UE à cooperação em minerais estratégicos, energia e descarbonização.
O avanço das negociações do acordo Mercosul–União Europeia foi apontado como resultado do contexto geopolítico recente e como oportunidade para aprofundar a cooperação em minerais críticos e energia entre Brasil, França e Europa. No LIDE Brasil França Fórum, Kennedy Alencar, diretor de Relações Institucionais da Vale, afirmou que o ambiente internacional favorece a conclusão do acordo ainda neste ano e citou a política adotada pelos Estados Unidos. “E de certa forma o presidente Donald Trump contribuiu para isso. Quando os Estados Unidos na geopolítica passam a adotar mais acordos bilaterais, isso ajudou o Mercosul.”
Kennedy Alencar declarou que “o patinho feio virou cisney” ao descrever a mudança de percepção sobre o Mercosul e afirmou que o Brasil busca ser “um parceiro confiável para a União Europeia e para a França no fornecimento de minerais críticos e estratégicos”. Ele citou que 12% da receita da Vale vêm da Europa e detalhou a contribuição do minério de ferro de alto teor para a descarbonização, mencionando rotas de forno elétrico e hidrogênio verde.
O diretor apresentou ainda o projeto de Mega Hubs, voltado à produção de briquetes e HBI no Brasil para uso posterior na indústria siderúrgica europeia. Para ele, “a mineração legal e responsável é aliada da transição energética” e deve estar associada à segurança operacional e ao compromisso com comunidades.
Governo francês: parceria em terras raras e cadeia soberana
Benjamin Gallezot, secretário interministerial de Abastecimento de Minerais e Metais Estratégicos da França. (Foto: Bruna Lopes/LIDE)
Benjamin Gallezot, secretário interministerial de Abastecimento de Minerais e Metais Estratégicos da França, afirmou que os presidentes dos dois países orientaram a criação de uma parceria específica na área. “No caso das terras raras, isso é óbvio, pois o Brasil dispõe de recursos importantíssimos.”
Ele explicou que a França possui tecnologia para refino de terras raras e capacidade industrial instalada, e que os dois países trabalham juntos para desenvolver projetos de extração com padrões ambientais elevados. Gallezot defendeu uma visão comum baseada na cooperação: “A cooperação é mais eficiente do que a concorrência”, afirmando que as iniciativas podem resultar em novos investimentos e fortalecer a segurança de abastecimento para setores como automotivo e aeronáutico.
Energia descarbonizada e moléculas verdes
Jean Pierre Clamadieu, presidente do Conselho de Administração da Engie. (Foto: Bruna Lopes/LIDE)
Jean Pierre Clamadieu, presidente do Conselho de Administração da Engie, destacou os investimentos da empresa no Brasil ao longo de 30 anos. “Temos 13 GW de capacidade de produção atualmente de eletricidade no Brasil. Somos o segundo maior produtor de eletricidade no Brasil. São 13 GW completamente descarbonada.”
Ele afirmou que a companhia pretende investir 12 bilhões de reais nos próximos três anos em geração e transmissão e lembrou que desafios regulatórios em energia solar, eólica e gás exigem cooperação entre autoridades dos dois países. Sobre moléculas verdes, Clamadieu afirmou que a eletrificação não atende todas as demandas energéticas e destacou o papel brasileiro: “O Brasil foi o primeiro país a desenvolver biocombustíveis.”
Ao tratar de terras raras, ele reforçou a importância da parceria: “O Brasil é um elemento de solução com a quantidade de terras raras que existem no país. E nós na França temos competência para refinar as terras raras.”
Demanda crescente e expansão no Brasil
Geoff Streeton, vice-presidente Executivo e Diretor de Desenvolvimento da Eramet, afirmou que os metais críticos se tornaram parte central da estratégia da companhia. Ela citou o aumento da demanda provocado por inteligência artificial, armazenamento de energia, baterias, defesa e mudanças industriais baseadas na geopolítica. Segundo ela, “o Brasil é um destino importante de investimentos”, e a empresa já desenvolve atividades no país, ampliando portfólio em cobre, níquel, lítio e grafite.
A executiva disse que a indústria enfrenta desafios de competitividade e que “devemos reunir as condições de um investimento competitivo”, mencionando intervenções governamentais em outros países e a necessidade de estabilidade orçamentária. Ela afirmou que a Eramet busca novas parcerias no Brasil e que a empresa desenvolve tecnologias extrativas há cerca de 14 anos, com base em projetos de lítio na Argentina, e estuda ampliar sua presença no país.