Como a nova lei que libera farmácias em supermercados impacta o varejo
Nova regra autoriza operação em áreas delimitadas dentro das lojas e cria pressão competitiva entre grandes redes do setor.
Nova lei permite a instalação de farmácias e drogarias dentro das áreas de venda de supermercados. (Foto: Freepik)
A separação entre comprar alimentos e adquirir medicamentos pode deixar de existir no Brasil. O governo federal sancionou lei que permite a instalação de farmácias e drogarias dentro das áreas de venda de supermercados, abrindo uma nova frente competitiva em um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais por ano. As informações são do InvestNews.
A medida atinge um setor com cerca de 95 mil drogarias no país, concentrado em poucos grandes grupos — os cinco maiores detêm 32% do mercado nacional. Ainda assim, a regulamentação impõe limites: a operação farmacêutica deverá funcionar em espaço físico exclusivo e delimitado, com exigência de farmacêutico habilitado durante todo o horário de funcionamento.
Também será permitido o uso de plataformas de e-commerce para entregas, desde que respeitadas as normas sanitárias vigentes.
Atacarejo lidera movimento
O Assaí está entre as primeiras redes a avançar no novo modelo. O CEO Belmiro Gomes afirmou que a medida representa uma evolução para o varejo alimentar e para o ambiente de negócios. A companhia prevê a abertura de 25 farmácias até julho dentro de suas unidades, aproveitando a estrutura já existente para reduzir custos de implantação.
O cenário favorece, inicialmente, grandes redes com fluxo consolidado de clientes e capacidade de investimento. Estimativas do BTG Pactual apontam que cada unidade exige entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões — valor que tende a limitar a adesão de redes menores.
Dados do banco, com base em ABRAS e IBEVAR, indicam que supermercados registraram produtividade média de R$ 42 mil por metro quadrado em 2024, enquanto farmácias listadas em bolsa operam com cerca de R$ 68 mil por metro quadrado. A diferença de 60% reforça o potencial de ganho ao incorporar o novo formato.
Além disso, categorias como medicamentos sem prescrição e genéricos apresentam margens estimadas entre 35% e 45%, superiores às praticadas no varejo alimentar.
Crescimento tende a ser gradual
Apesar do potencial, a expansão deve ocorrer de forma progressiva. Atualmente, 23% das drogarias já operam dentro de supermercados, e 21% das redes associadas à ABRAS possuem farmácias em suas lojas.
Mesmo em um cenário de adesão ampla, o impacto inicial tende a ser limitado. Caso 80% das lojas das 30 maiores redes incluam farmácias completas, a presença nacional de drogarias cresceria 3,7%. Entre as 300 maiores redes, o avanço chegaria a 8%.
Restrições operacionais também pesam, como exigências de infraestrutura, controle de temperatura, rastreabilidade de medicamentos e disponibilidade de farmacêuticos — fator especialmente sensível fora dos grandes centros.
As redes poderão optar por operar com marca própria ou firmar parcerias com empresas já estabelecidas no setor, equilibrando controle e risco.
Pressão sobre redes farmacêuticas
No outro lado, a RD Saúde, controladora das marcas Raia e Drogasil, aparece como a mais exposta ao novo cenário. O risco não é imediato, já que a operação completa de uma farmácia ainda é difícil de replicar dentro de supermercados, mas a sobreposição geográfica tende a aumentar a concorrência.
Segundo o BTG Pactual, 25% das lojas da companhia estão a menos de 2 quilômetros de unidades do Assaí, percentual que sobe para 60% em um raio de 5 quilômetros. Em relação ao Carrefour, a sobreposição é de 49% em até 2 quilômetros e 76% em 5 quilômetros.
Com o avanço do modelo, a disputa por conveniência deve se intensificar justamente nas regiões onde as grandes redes farmacêuticas já concentram suas operações.