Falta de energia para a IA abre espaço para o Brasil na corrida dos data centers
Com oferta abundante de energia renovável e menos pressão sobre a rede elétrica, país atrai investimentos enquanto Estados Unidos e Europa enfrentam gargalos para expandir sua infraestrutura digital.
Avanço da inteligência artificial elevou a demanda por poder computacional e, consequentemente, por energia elétrica. (Foto: Unsplash)
A expansão da inteligência artificial está redesenhando o mapa global dos data centers e colocando o Brasil entre os mercados observados pelo setor. A combinação de energia renovável abundante e capacidade disponível na rede elétrica tem atraído investimentos para o país. Em reportagem publicada pelo InvestNews, Victor Arnaud, presidente da Equinix no Brasil, resumiu esse movimento: “Essas operações, principalmente as de treinamento de modelos de IA, estão indo cada vez mais para os lugares onde você tem energia disponível e segurança regulatória”.
O avanço da inteligência artificial elevou a demanda por poder computacional e, consequentemente, por energia elétrica. Alimentar e resfriar servidores exige volumes cada vez maiores de eletricidade, levando empresas e governos a buscar soluções para ampliar sua infraestrutura digital.
Nesse contexto, surgem iniciativas pouco convencionais. Elon Musk já falou sobre a possibilidade de instalar data centers em órbita terrestre, aproveitando a disponibilidade contínua de energia solar. A China, por sua vez, opera uma estrutura submarina a 30 metros de profundidade, utilizando a água do mar para resfriamento.
Mas existem alternativas menos complexas. Uma delas é a instalação de data centers em países com ampla oferta de energia. O Brasil se destaca nesse cenário por ser o terceiro maior produtor mundial de energia renovável, atrás apenas de China e Estados Unidos.
O país conta atualmente com 206 data centers em operação, o maior número da América do Sul. Nos últimos dois anos, empresas do setor anunciaram mais de R$ 80 bilhões em novos projetos.
Essas estruturas funcionam como grandes centros de processamento de informações, responsáveis por armazenar, processar e distribuir os dados que sustentam serviços digitais, transações financeiras, plataformas de vídeo e aplicações de inteligência artificial.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo de eletricidade dos data centers deve mais que dobrar até 2030 em relação aos níveis de 2024, alcançando 945 terawatt-hora, volume equivalente a aproximadamente duas vezes o consumo anual de energia do Brasil.
Os Estados Unidos seguem como principal polo global do setor, concentrando cerca de 4,3 mil data centers, o equivalente a 38% da capacidade mundial. Apenas entre 2025 e 2026, Amazon, Microsoft, Google e Meta anunciaram mais de US$ 1 trilhão em investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, chips e data centers.
O crescimento acelerado, porém, pressiona a infraestrutura energética. Na Virgínia, principal mercado americano para data centers, a fila para conexão de novos empreendimentos à rede elétrica aumentou significativamente. A previsão é que grandes projetos possam levar até sete anos para entrar em operação.
Situação semelhante é observada na Europa. Segundo estimativas da organização britânica Ember, a conexão de novos data centers à rede elétrica em cidades como Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin pode levar entre sete e 13 anos.
Esse cenário favorece mercados alternativos. Para Victor Arnaud, além dos grandes polos tradicionais, outras regiões passam a ganhar espaço. “Essas operações, principalmente as de treinamento de modelos de IA, estão indo cada vez mais para os lugares onde você tem energia disponível e segurança regulatória”, afirmou.
No caso brasileiro, um dos diferenciais é justamente a disponibilidade de energia. Em determinados períodos do dia, especialmente durante os horários de maior geração solar, o país produz mais eletricidade do que a rede consegue absorver.
O fenômeno, conhecido como curtailment, levou usinas a deixarem de gerar 20,6% da energia potencialmente disponível em 2025. Segundo o setor elétrico, isso representou perdas de faturamento estimadas em R$ 6,5 bilhões.
A expansão dos data centers surge como uma oportunidade para absorver parte dessa energia. Neste ano, a Casa dos Ventos anunciou dois contratos voltados ao segmento. Um deles prevê investimentos de R$ 2,5 bilhões em projetos eólicos e solares para atender operações da Ascenty. Outro, de R$ 4 bilhões, irá abastecer por 20 anos o data center em construção no Ceará para atender a ByteDance, controladora do TikTok.
“Hoje, poucos países conseguem competir com o Brasil em custo de energia renovável”, afirmou Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, responsável pelo projeto cearense.
Outro diferencial apontado por executivos do setor é o sistema elétrico nacional interligado, que permite a distribuição de energia entre diferentes regiões do país.
Apesar das vantagens, ainda existem desafios. Especialistas apontam gargalos na infraestrutura de distribuição, incluindo subestações, linhas de transmissão e transformadores, além de incertezas regulatórias relacionadas ao Regime Especial de Tributação para Data Centers (Redata).
Criado por medida provisória em 2025, o programa previa incentivos tributários para a importação de equipamentos essenciais ao setor, mas perdeu validade antes de ser convertido em lei. Um projeto substitutivo já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e aguarda análise do Senado.
Enquanto o debate regulatório avança, o crescimento da inteligência artificial e a busca global por energia colocam o Brasil em posição de destaque na disputa internacional por novos investimentos em infraestrutura digital.