Jean Paul Prates aponta excesso de oferta e nova geopolítica no mercado global de petróleo
Head do LIDE Energia avalia que o preço do petróleo reage mais a choques de demanda do que de oferta e destaca o papel do Brasil na disputa entre Estados Unidos e China.
Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e head do LIDE Energia. (Foto: Evandro Macedo/ LIDE)
O mercado global de petróleo vive um momento de excesso de oferta, pressão sobre os preços e transformação estrutural na lógica geopolítica que historicamente orientou o setor energético. A avaliação é de Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e head do LIDE Energia, ao analisar os recentes movimentos no cenário internacional.
Em entrevista à CNN Brasil, Prates afirmou que a queda acumulada dos preços do Brent e do WTI ao longo de 2025 reflete uma mudança profunda na formação de preços do petróleo. Segundo ele, diferentemente das décadas de 1970 e 1980, quando choques de oferta provocavam altas abruptas, hoje o mercado reage de forma mais intensa a eventos que afetam a demanda. “Há pelo menos duas décadas, a demanda passou a ser o principal vetor de formação de preços, mais do que a oferta”, afirmou.
O ex-presidente da Petrobras destacou ainda que a diversificação das fontes de produção — que hoje se estende do Ártico ao alto-mar e a diferentes regimes regulatórios — reduziu a capacidade de eventos isolados de oferta provocarem disrupções prolongadas nos preços. Mesmo choques relevantes tendem a ser absorvidos pelo mercado em prazos mais curtos.
Nesse contexto, Prates avalia que a retomada da influência dos Estados Unidos sobre o petróleo venezuelano representa um fator adicional de pressão sobre os preços globais. A Venezuela, segundo ele, tem potencial para produzir cerca de 3 milhões de barris por dia, mas atualmente opera abaixo de 1 milhão, em razão de ineficiências e da falta de investimentos acumulada ao longo dos últimos governos.
Para o head do LIDE Energia, no entanto, o debate atual vai além do petróleo. Ele aponta uma transição da antiga geopolítica “petrocentrista” para um cenário mais amplo, em que minerais críticos e terras raras ganham centralidade, impulsionados pela eletromobilidade, pela eletrificação da economia e pela digitalização global.
Prates também destacou que a disputa entre Estados Unidos e China tende a se intensificar nesse novo contexto. Enquanto Washington busca reduzir a dependência externa e conter a influência chinesa, Pequim já sinalizou restrições à exportação de minerais estratégicos, ampliando a competição global por esses recursos.
Na avaliação do executivo, o Brasil ganha relevância estratégica por reunir petróleo de alta qualidade, produção crescente no pré-sal, estabilidade institucional e ausência de sanções econômicas. Além disso, mantém contratos de longo prazo com a China e conta com participação de empresas chinesas em campos brasileiros.
Segundo Prates, uma eventual recuperação da indústria petrolífera venezuelana sob influência direta dos Estados Unidos tende a reduzir o espaço da China naquele país, reforçando o papel do Brasil como fornecedor estratégico. Para ele, o mundo vive hoje uma geopolítica multidimensional, marcada por disputas por áreas de influência, controle de recursos naturais e ativos essenciais para a transição energética.