Juros altos travam o mercado imobiliário, mas luxo segue em alta
Enquanto o crédito mais caro pressiona a demanda por imóveis financiados, segmento de alto padrão mantém ritmo sustentado por compradores menos dependentes dos bancos e focados em estratégia patrimonial.
Luiz Coelho da Fonseca, co-CEO da Coelho da Fonseca. (Foto: Divulgação)
O mercado imobiliário de alto padrão e luxo segue demonstrando maior resiliência em um cenário de juros elevados. Com a taxa básica próxima de 13,25% ao ano, após ter alcançado níveis próximos de 15% no ciclo recente de aperto monetário, o encarecimento do crédito tem impactado de forma mais intensa o segmento de médio padrão, tradicionalmente mais dependente do financiamento bancário.
Dados da PNAD Contínua 2025, do IBGE, mostram mudanças no perfil habitacional do país. A proporção de domicílios próprios e quitados recuou de 66,8% para 61,6%, enquanto o número de imóveis alugados avançou de 12,7 milhões para 17,1 milhões. O movimento reflete as dificuldades de acesso ao crédito imobiliário em um ambiente de financiamento mais caro.
Segundo Luiz Coelho da Fonseca, co-CEO da Coelho da Fonseca, o mercado de alto padrão costuma ser menos sensível aos ciclos de juros elevados. “Em vez de descapitalizar totalmente na compra do imóvel, muitos preferem manter recursos aplicados e preservar liquidez. Em vários casos, o rendimento do capital, seja em ativos financeiros ou no próprio negócio, quase sempre supera o custo do financiamento”, afirma.
De acordo com o executivo, mesmo compradores com capacidade para realizar a aquisição à vista frequentemente utilizam o financiamento como instrumento de gestão financeira.
“Muitas vezes, mesmo clientes com capacidade de compra à vista optam pelo financiamento para manter liquidez, investir os recursos ou utilizá-los em negócios próprios. Dependendo do cenário, o rendimento do capital pode superar o custo do financiamento”, diz.
Nesse contexto, as decisões de compra no segmento de alto padrão tendem a estar mais associadas à estratégia patrimonial do que às condições de crédito. Fonseca avalia que o mercado vive atualmente um cenário de “buyer’s market”, caracterizado por condições mais favoráveis aos compradores e maior poder de negociação diante de uma oferta mais ampla de imóveis.
Para esse público, o imóvel também se consolida como um ativo real voltado à preservação patrimonial. Em um ambiente de maior incerteza, investidores tendem a priorizar ativos tangíveis, com menor volatilidade e maior previsibilidade de valor no longo prazo.
O resultado é um mercado cada vez mais segmentado. Enquanto o médio padrão enfrenta os efeitos da Selic elevada e da restrição ao crédito, os segmentos de alto padrão e luxo mantêm maior capacidade de adaptação ao ciclo econômico e menor dependência de financiamento.