Um ano após estreia em Nova York, JBS busca acesso ao mercado trilionário dos ETFs

Listagem na NYSE ampliou liquidez, atraiu investidores estrangeiros e reduziu o custo da dívida, mas valorização adicional depende da entrada em grandes índices americanos.

Guilherme Cavalcanti, CFO global da companhia (1)Guilherme Cavalcanti, CFO da JBS. (Foto: Divulgação)

A JBS completa neste mês o primeiro ano desde sua estreia na Bolsa de Nova York (NYSE), movimento que marcou uma nova etapa na estratégia da companhia de ampliar sua presença entre investidores internacionais. O objetivo agora é conquistar espaço nos principais índices do mercado americano e, com isso, acessar os trilhões de dólares administrados por fundos passivos, como os ETFs.

Segundo reportagem do InvestNews, a inclusão nesses índices pode representar um novo ciclo de valorização para a maior processadora de carnes do mundo. Atualmente, a companhia ainda negocia com desconto em relação a concorrentes americanas, como a Tyson Foods, apesar de apresentar indicadores operacionais superiores em diversas frentes de negócio.

A listagem nos Estados Unidos também mudou o perfil da base acionária da empresa. Antes da migração para a NYSE, investidores estrangeiros representavam 72% das negociações com ações da JBS. Hoje, essa participação chega a 90%, sendo que 74% do total está nas mãos de investidores americanos.

"Passamos a ter diariamente pedidos de investidores que nunca haviam interagido conosco para conversas e mais detalhes. Essa é a vantagem de um mercado mais pulverizado como o dos Estados Unidos", afirmou Guilherme Cavalcanti, CFO da JBS.

A entrada nos principais índices, porém, depende do cumprimento de uma série de critérios. Um dos principais é comprovar que a maior parte das receitas é gerada nos Estados Unidos. Atualmente, 52% do faturamento anual de US$ 86,2 bilhões da companhia têm origem no mercado americano, enquanto o Brasil responde por 26%.

A empresa também precisou adaptar processos internos para se alinhar às exigências do mercado norte-americano. A partir dos próximos resultados trimestrais, os balanços e fatos relevantes passarão a ser divulgados no mesmo prazo adotado pelas empresas americanas listadas em bolsa.

Os primeiros avanços já começaram a aparecer. A JBS integrou recentemente a prévia do Russell 3000, índice que reúne milhares de empresas negociadas nos Estados Unidos. Segundo estimativas do Citi, a inclusão pode gerar uma demanda passiva imediata entre US$ 210 milhões e US$ 300 milhões em ações da companhia.

O próximo passo é ingressar no Russell 1000, que reúne as mil maiores empresas americanas em valor de mercado. Para a companhia, a entrada é vista como uma questão de tempo. Já o acesso ao S&P 500 representa um desafio maior, uma vez que exige critérios mais rigorosos relacionados ao valor de mercado e ao volume de ações em circulação.

Enquanto a busca pelos grandes índices continua, a JBS já observa benefícios concretos da presença em Nova York. De acordo com cálculos do Citi citados na reportagem, a liquidez diária das ações praticamente triplicou, passando de cerca de US$ 37 milhões para US$ 115 milhões.

Outro efeito importante foi a redução do custo de captação da empresa. Segundo Cavalcanti, a diferença entre o custo da dívida da JBS e o de concorrentes americanos caiu significativamente nos últimos anos, refletindo a maior confiança do mercado internacional na companhia.

Apesar dos avanços, o cenário operacional segue desafiador. A escassez de gado nos Estados Unidos pressionou as margens da operação bovina da JBS no país e afetou os resultados do primeiro trimestre. O lucro consolidado da companhia recuou 56%, para US$ 221 milhões.

Mesmo diante desse contexto, a empresa mantém a aposta de que a inclusão nos grandes índices americanos pode ampliar sua visibilidade entre investidores globais e abrir caminho para uma nova reprecificação das ações. O desafio, agora, é transformar a presença em Wall Street em um passaporte definitivo para o seleto grupo das maiores empresas negociadas nos Estados Unidos.