Estratégia dos EUA expõe dilemas da diplomacia econômica e reacende debate sobre protecionismo global
Tarifas impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros reacendem o debate sobre protecionismo e colocam à prova a diplomacia econômica do Brasil.
Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
A decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifas elevadas sobre produtos de países emergentes, incluindo o Brasil, reacendeu o fantasma do protecionismo. As sobretaxas sobre aço, alumínio e etanol — setores estratégicos para a balança comercial brasileira — ameaçam a competitividade em um cenário já pressionado pela desaceleração global.
Diplomatas e analistas classificaram a medida como parte de uma política industrial americana voltada à proteção da cadeia doméstica diante de tensões comerciais crescentes. No Brasil, empresários pedem novas negociações, mas o governo ainda não encontrou um canal eficaz de diálogo bilateral. Para o ex-embaixador Rubens Barbosa, o caminho é o pragmatismo: “Não temos alternativa além da negociação com os Estados Unidos.” Já Rubens Ricupero, ex-ministro e ex-embaixador, considerou a decisão “absurda”, mas recomendou cautela: “É possível que o governo americano reveja ou adie sua aplicação. Até lá, é importante usar os canais diplomáticos.”
Um estudo da FIEMG estima que as tarifas podem reduzir o PIB brasileiro em até R$ 25,8 bilhões no curto prazo e R$ 110 bilhões no longo prazo. Ainda assim, o presidente do Sebrae, Décio Lima, vê oportunidade: “O tarifaço dos EUA não é uma tragédia para o Brasil — é um despertar. Vamos crescer com essa situação, fortalecer cadeias produtivas e abrir novos mercados. O Brasil é muito maior do que isso.”
No curto prazo, o desafio do governo é duplo: manter abertos os canais diplomáticos com Washington e defender setores exportadores, ao mesmo tempo em que participa do debate internacional sobre novas regras de comércio. No médio prazo, analistas apontam que a crise pode acelerar a diversificação de mercados e reduzir a dependência do Brasil em relação aos EUA.
Pesquisa da Amcham Brasil, com 162 empresas, mostra que 88% defendem a negociação em vez de medidas retaliatórias, enquanto 86% acreditam que retaliações agravariam tensões. Para o presidente da entidade, Abrão Neto, os riscos vão “desde a interrupção de exportações até o redirecionamento de investimentos globais”, tornando urgente a busca por uma solução que preserve os ganhos da relação bilateral.