"O maior privilégio que um empresário pode ter é quebrar", diz fundador da Petz em painel sobre empreendedorismo real
Durante seminário do LIDE em Barueri, líderes de gigantes como Magazine Luiza, PetzCobasi e Da Terrinha Alimentos revelam bastidores de falências, calotes e os riscos reais que as redes sociais não mostram.
O abismo que separa o sucesso romântico das redes sociais da realidade nua e crua dos negócios no Brasil foi o grande ponto de convergência no Seminário LIDE Empreendedorismo e Economia Criativa. Reunindo titãs do mercado de verticais completamente distintas — do agronegócio à inteligência artificial —, o painel se transformou em um manifesto ao "empreendedorismo de trincheira". Longe das fórmulas mágicas, os palestrantes deixaram claro que marcas bilionárias não nascem de ideias perfeitas, mas da capacidade quase obstinada de abraçar crises, suportar dores societárias, engolir prejuízos e manter os pés fincados no chão de loja.
A frase que abriu este texto, disparada pelo fundador da Petz, Sergio Zimerman, deu o tom de um debate que passou como um trator por cima do romantismo corporativo. Grandes expoentes do PIB brasileiro deixaram de lado os relatórios polidos para contar como transformaram falências, calotes internacionais e até a coleta de esterco na base de impérios que hoje movimentam bilhões de reais.

Cicatrizes, intuição e gestão: líderes revelam os bastidores do empreendedorismo de trincheira no Brasil (Foto: Evandro Macedo/LIDE)
O valor de uma falência e o "faro de rua"
Zimerman, que hoje preside o conselho do recém-formado grupo PetzCobasi — um dos cinco maiores do mundo no setor —, relembrou sua concordata no ano de 2002, quando geria um dos maiores atacados de rua de São Paulo.
"Tem gente que vai viver eternamente do passado se lamentando, culpando os juros, os bancos, a concorrência. Eu escolhi dizer graças a Deus que eu fali, porque foi uma oportunidade de aprendizado sem precedentes. A intuição já não era mais suficiente", revelou.
Ele usou o tombo para entender a necessidade de se profissionalizar em gestão, o que permitiu, anos mais tarde, fundar a Pet Center Marginal, atrair fundos de private equity americanos e protagonizar um IPO histórico na Bolsa de Valores.
Josias Evangelista, CEO da Da Terrinha Alimentos. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)
Essa mesma sensibilidade prática foi ecoada por Josias Evangelista, CEO da Da Terrinha Alimentos. Com o carisma que arrancou aplausos e risadas da plateia, Josias relembrou o início de sua vida profissional ao lado do irmão gêmeo, recolhendo estrume bovino nos pastos para vender de porta em porta para donas de casa.
"Transformar bosta em produto: essa foi a nossa primeira economia criativa. E até para pegar bosta você tem que ser especialista. Tinha que ser de vaca, tinha que ser sequinha", brincou.
Anos depois, ao apostar no reposicionamento de um produto ancestral e genuinamente brasileiro, a empresa se tornou a maior produtora de tapioca do mundo, exportando hoje para mais de 50 países.
O batismo de fogo no comércio exterior
Se o varejo exige jogo de cintura, o comércio internacional cobra um preço ainda mais alto pela inexperiência. Laura Rauscher, CEO da Zafra Commodities, relembrou o "calote negocial" que sofreu quando tinha apenas 22 anos. Uma carga familiar de 189 toneladas de pimenta-do-reino (equivalente a sete contêineres) sofreu uma desvalorização brutal no preço internacional enquanto cruzava o oceano. Ao atracar no destino, o comprador original abandonou a carga para tentar forçar descontos.
Laura Rauscher, CEO da Zafra Commodities. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)
Para evitar que a mercadoria fosse a leilão portuário, Laura teve de tomar a decisão imediata de revender o produto a preço de mercado, assumindo um prejuízo real de 340 mil dólares na operação.
"Descobri que conquistar clientes é apenas o começo. O verdadeiro desafio é garantir que toda a operação aconteça até o final com segurança. Exportar é assumir riscos logísticos, cambiais, jurídicos e geopolíticos. Quando dá errado, o exportador descobre que está sozinho", alertou a executiva, apontando que a maior oportunidade para novos inovadores está em criar sistemas globais de conformidade e crédito para o agro.
O "vinho do lockdown" e as dores da sociedade
Outro relato de resiliência veio de Cristiano Santana, CEO da Zaaz Telecom. Filho de metalúrgico no ABC paulista, ele rompeu o destino óbvio das montadoras para começar do zero como instalador de orelhão na Telesp, subindo na carreira até virar diretor de grandes companhias. Ao decidir empreender comprando um pequeno provedor de internet no interior, enfrentou uma cisão societária dolorosa por divergência de visão: ele queria escala exponencial, o sócio queria uma empresa "boutique".
Cristiano Santana, CEO da Zaaz Telecom. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)
A crise estourou em março de 2020. Em um sábado, enquanto tomava um vinho em casa comemorando que havia fechado com um investidor para comprar a parte do sócio, veio o pronunciamento em rede nacional decretando o lockdown da pandemia no estado. O investidor recuou imediatamente por conta do derretimento da Bolsa.
Cristiano teve de refazer toda a estratégia de contingência da empresa em horas, negociar com 30 prefeitos para manter o serviço de internet rodando por ser essencial e, meses depois, vendeu sua parte, alavancou capital no banco e fundou a Zaaz do zero. O negócio escalou de forma tão agressiva que foi comprado pelo grupo Wiken e hoje atende 650 mil clientes em 17 estados.
Da sola de sapato à inteligência artificial
Fechando o painel, Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, defendeu a multicanalidade e trouxe a tecnologia para a linguagem do cotidiano. Defendendo com orgulho o sotaque de Franca ("falo porta e portão mesmo"), Luiza desmistificou o temor do avanço tecnológico.
"Mexer na inteligência artificial é mais fácil do que WhatsApp. Ela tem que ser nossa aliada", afirmou.
Ela revelou que o Magalu é pioneiro global ao concluir jornadas de venda completas por IA diretamente dentro do WhatsApp, sem que o cliente precise sair do aplicativo. Contudo, fez um alerta: a tecnologia é apenas o meio, o foco precisa continuar nas pessoas.
Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)
"A loja física não vai acabar, mas agora ela tem que vender experiência, encontro. O digital é uma cultura, mas as pessoas têm necessidade de se encontrar", disse, citando o caso da nova megaloja do grupo no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, que preservou o legado cultural do espaço.
Mesmo liderando um ecossistema com superapp, computação em nuvem própria e a maior influenciadora virtual do mundo (a Lu), ela confessou que não abre mão do contato direto.
"Comprei um escritório para mim dentro da loja da Paulista. Sexta e sábado, quando estou em São Paulo, eu vou para lá atender cliente, tirar foto. O que vai sobrar para o ser humano é gastar sola de sapato e estar na ponta."
A tese foi endossada por Fernando Godoy, CEO da Amplify, que alertou sobre os perigos de se encantar com o hype tecnológico. Para ele, mais de 50% do trabalho nas empresas ainda é repetitivo e a IA serve para assumir essa parte burocrática, mas os negócios continuam travando por problemas antigos: falta de processo, distribuição e visão de mercado.
"A IA tornou a capacidade de criar abundante. Porém, é raro saber o que merece ser criado. Isso só o humano faz", concluiu Godoy, apontando para a ascensão do profissional "nexialista" — aquele que sabe conectar tecnologia, negócios e sensibilidade humana.