O plano bilionário para transformar ilhas desertas no polo do turismo de luxo no Mar Vermelho

Com hotéis moldados em rochas, vilas flutuantes e operação mantida por energia solar, o megaprojeto costeiro redefine o turismo de isolamento e preservação ambiental.

SLS-The-Red-Sea-Shura-Island-5
Com hotéis moldados em rochas, vilas flutuantes e operação mantida por energia solar.

A primeira impressão ao sobrevoar a costa oeste da Arábia Saudita contraria o nome do destino. Em vez do azul do Mar Vermelho, o que se vê da janela do avião são dunas em tons de ocre que se estendem até o horizonte, interrompidas apenas por arbustos esparsos. Esse cenário árido, no entanto, introduz um dos planos mais ambiciosos de desenvolvimento turístico global, liderado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman dentro do plano Visão 2030 para diversificar a economia do país além do petróleo.

Historicamente central para o comércio marítimo entre a Ásia, a África e a Europa, a região foi rota de fenícios, egípcios, gregos e romanos, além de servir como caminho de peregrinação para Meca e Medina. Agora, a área passa por uma reinvenção estrutural comandada pela Red Sea Global. O projeto ocupa uma área de 28 mil quilômetros quadrados que abrange deserto, montanhas vulcânicas, cânions e um arquipélago com mais de 90 ilhas desabitadas. A proposta central é o turismo regenerativo, focado na restauração de ecossistemas. Para garantir o menor impacto ambiental, o governo determinou que apenas 22 dessas ilhas receberão construções, mantendo 75% do arquipélago intocado e transformando nove ilhas em zonas de conservação total.

Shura-Links-Clubhouse
A proposta central é o turismo regenerativo, focado na restauração de ecossistemas.

A infraestrutura do complexo opera de maneira independente da rede elétrica nacional. Todo o fornecimento de energia é gerado por parques solares que somam mais de 760 mil painéis instalados na região, alimentando inclusive a primeira rede móvel 5G de emissão zero de carbono do mundo. O projeto também conta com a maior instalação de armazenamento de bateria do mundo (1.200 MWh) para garantir energia contínua. A água utilizada provém de usinas de dessalinização por osmose reversa movidas a energia solar, e os resíduos são processados em uma instalação de resíduo zero, que transforma restos orgânicos em adubo.

Na porção marítima, localizada na Província de Tabuk, cerca de 500 quilômetros ao norte de Jidá, os hotéis exploram a quarta maior barreira de corais do mundo. A região abriga 175 espécies de corais, 280 espécies de peixes, além de aves marinhas, golfinhos, dugongos e tartarugas-de-pente. Na ilha de Ummahat, o resort St. Regis Red Sea — projetado pelo arquiteto Kengo Kuma — conta com 90 vilas sobre a água e na praia, inspiradas em dunas de areia, conchas e redes de pesca. Na mesma ilha, o Nujuma, da marca Ritz-Carlton Reserve, oferece 63 vilas e foca na herança cultural árabe, incluindo um centro de conservação marinha e um telescópio para observação astronômica.

The-Red-Sea-EDITION-aerial
O Mar Vermelho está entre os mares mais quentes e salinos da Terra devido à intensa evaporação.

Mais ao norte, na ilha de Shebara, o escritório Killa Design instalou 73 vilas com formato circular e acabamento espelhado em aço inoxidável, projetadas para refletir a variação de cores do céu e do mar ao longo do dia, pesando cerca de 150 toneladas cada.

O desenvolvimento também se estende para o interior continental. No deserto, o resort Six Senses Southern Dunes conta com 76 acomodações organizadas em torno de um oásis central e foca em tratamentos de bem-estar. Próximo dali, o complexo Desert Rock está sendo esculpido diretamente nos vales rochosos e montanhas de granito, com os quartos integrados à própria pedra para preservar a silhueta natural da paisagem.

The-Red-Sea-EDITION_Beach
Relaxando à beira-mar no Mar Vermelho.

O acesso ao arquipélago e ao deserto é centralizado pelo Aeroporto Internacional do Mar Vermelho (RSI), projetado pelo escritório Foster + Partners, que atende voos domésticos de Riad e Jidá e planeja rotas internacionais a partir de Dubai. Para os deslocamentos internos entre o aeroporto e as ilhas, os turistas utilizam veículos elétricos, barcos movidos a hidrogênio ou os hidroaviões operados pela Fly Red Sea, a primeira companhia aérea do país focada em aeronaves anfíbias, que utilizam combustível de aviação sustentável (SAF).

O calendário de visitação é influenciado pelas estações: o período entre outubro e abril concentra o maior fluxo de passageiros devido às temperaturas amenas, enquanto os meses de maio a setembro registram marcas que ultrapassam os 40°C. Até 2030, o plano prevê a conclusão total do complexo, que contará com 50 hotéis, cerca de 8 mil quartos e até mil propriedades residenciais espalhadas pelas ilhas e pelas áreas continentais, consolidando a costa saudita no mercado global de turismo de isolamento.