Operar cruzeiros no Brasil é até 50% mais caro do que no exterior, dizem executivos da MSC e da Costa

No Seminário LIDE Turismo, líderes da indústria de cruzeiros marítimos cobraram maior coordenação do poder público e investimentos em infraestrutura portuária para conter a perda de navios para mercados globais.

O mercado global de cruzeiros marítimos vive um momento de expansão sem precedentes, mas o Brasil corre o risco de ficar para trás se não enfrentar com urgência seus gargalos estruturais e de custos. Este foi o diagnóstico central do Seminário LIDE Turismo, realizado nesta quarta-feira (10) na Casa LIDE, na capital paulista.

Líderes do setor apresentaram dados robustos sobre a força econômica da atividade, mas cobraram uma visão de longo prazo, ambição e liderança do poder público para transformar o imenso potencial do litoral brasileiro em realidade permanente.

ESPAÇO TV LIDE_FORUM EMPRESARIAL 2026 (1) Dario Rustico, presidente-executivo para as Américas da Costa Cruzeiros, e Adrian Ursilli, diretor-geral da MSC Cruzeiros. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)

Caribe saturado e o paradoxo brasileiro

O presidente da Associação de Empresas de Cruzeiros Marítimos (CLIA Brasil), Marcos Ferraz, abriu o painel desenhando o cenário de pujança da indústria no mundo. Segundo o executivo, o setor fechou o último ano com 37,3 milhões de cruzeiristas globalmente — um volume comparável à população inteira do Canadá e que representa um crescimento de 20 vezes desde 1985. A projeção é superar 38 milhões de passageiros ainda em 2026 e atingir 42 milhões em 2029.

No entanto, a América do Sul ainda retém uma fatia tímida desse bolo. "Temos 1,2 milhão de cruzeiristas na América do Sul. Para dar uma ideia, 4 a cada 10 cruzeiristas mundiais estão no Caribe e um a cada seis está no Mediterrâneo. Nós brigamos lá embaixo", apontou Ferraz.

O presidente da CLIA destacou o abismo na taxa de penetração do produto: enquanto 6% da população dos EUA e 5,2% da Austrália fazem cruzeiros anualmente, no Brasil esse índice é de apenas 0,35%.

"Se a gente chegar a 1%, a gente triplica o setor no país. Temos plenas condições de chegar lá", afirmou Ferraz, lembrando que a próxima temporada nacional deve saltar de 675 mil para 830 mil passageiros, movimentando, junto com os navios internacionais, R$ 6 bilhões e gerando 93 mil empregos no país.

O custo Brasil e o mito da "temporada"

O diagnóstico mais contundente sobre a falta de competitividade internacional do país veio de Dario Rustico, presidente-executivo para as Américas da Costa Cruzeiros (marca que integra a gigante Carnival Corporation). Com bagagem profissional acumulada na Ásia, EUA e Oriente Médio, Rustico contextualizou que os navios são ativos móveis e democráticos, que migram para as regiões que vencem o "caso de negócios" (business case).

"Um estudo que encomendei dois anos atrás mostra que operar um roteiro de sete noites no Brasil, competindo com Canárias, Caribe ou Mediterrâneo, é entre 40% e 50% mais caro", revelou Rustico. Ele listou uma série de custos asfixiantes: taxas portuárias, tarifas de praticagem, combustível, impostos e incertezas da reforma tributária.

Rustico também mirou o que chama de "mito da temporada" e defendeu que a palavra deveria ser abolida da América do Sul.

"Não tem temporada no Caribe, na Ásia ou na Europa, onde as pessoas navegam a -10°C em janeiro. Nós temos tudo aqui para ter navios o ano inteiro. A sazonalidade limita quem quer investir. O Caribe está saturado, não tem mais para onde mandar navios lá. Temos os ingredientes na mesa, mas falta o que o governador mencionou antes: liderança. Falta uma sala de controle, ambição e visão de desenvolvimento", criticou o executivo da Costa Cruzeiros, cobrando metas de longo prazo semelhantes aos planos de cinco anos aplicados na Ásia e no Oriente Médio.

Infraestrutura portuária e sustentabilidade em xeque

Além dos custos, a infraestrutura física dos portos nacionais foi apontada como um limite para o crescimento. Rustico enfatizou que a maioria dos terminais brasileiros divide espaço com operações de carga e contêineres e não foi projetada para receber as grandes e modernas embarcações de passageiros.

Esse gargalo se tornará ainda mais crítico com as novas exigências de transição energética. Até 2028, 50% da frota mundial estará equipada para operar com combustíveis limpos (como GNL e metanol) e 72% terá capacidade para se conectar à energia elétrica em terra (shore power), reduzindo a emissão de poluentes nos portos. Cidades e portos que não se modernizarem para oferecer essa estrutura socioambiental simplesmente perderão navios.

O cruzeiro como "polinizador" da economia interna

Apesar das barreiras, as companhias mantêm apostas pesadas no mercado brasileiro devido ao alto índice de aprovação do público — cerca de 90% dos hóspedes manifestam intenção de navegar novamente.

Adrian Ursilli, diretor-geral da MSC Cruzeiros — empresa privada familiar que detém cerca de 70% de market share no Brasil —, defendeu a relevância da atividade como um vetor de retenção de divisas e um "polinizador" do turismo doméstico.

"Através da operação de cabotagem, conseguimos reter o turista dentro do território nacional. Embarcando em Santos, Itajaí ou Paranaguá, ele viaja pelo Nordeste e Sudeste, consumindo e fazendo investimentos diretos nesses destinos", explicou Ursilli.

O diretor da MSC detalhou o efeito multiplicador das escalas, que duram geralmente das 8h às 17h:

"O hóspede sai satisfeito da escala e diz: 'Eu quero voltar e ficar uma semana aqui'. Isso acontece muito no Brasil, porque muitos brasileiros não conhecem o próprio país. Eles descem no Rio, em Búzios, Ilhabela ou Salvador e depois retornam para estadias terrestres mais longas."

Ursilli lembrou ainda que o setor é um modal altamente complementar e dependente da saúde dos setores aéreo e hoteleiro. Para a próxima temporada, a MSC trará cinco navios para a região, incluindo as estreias do MSC Virtuosa e do MSC Divina, todos equipados com o conceito de alto luxo MSC Yacht Club. A empresa também projeta levar sua nova marca de ultra-luxo, a Explora Journeys, para roteiros na Amazônia entre 2027 e 2028.

"As dificuldades existem, notamos que o avanço é lento e o futuro às vezes é incerto, mas nós continuamos acreditando no potencial de consumo e no desejo do brasileiro de viajar", concluiu o diretor da MSC.